Indicação de leitura: Beauty and The Bullshit

O blog Beauty and The Bullshit (já aviso de cara, é em inglês) é para mim uma leitura obrigatória para quem gosta de maquiagens e quer ser mais uma consumidora mais consciente. É um blog que fala de cosméticos e beleza sim, mas não esse bando de clichês e deslumbramento que vemos por aí. Quando eu o descobri, achei tão interessante e atípico que não saí dele até terminar de ler todos os os posts. Desde então, recomendo a leitura dele a quem eu acho que possa interessar. O que ele tem de interessante?

1º O nome

Segundo a Wikipedia (tradução livre): “Bullshit é um termo comumente uttilizado para descrever as declarações feitas por pessoas mais preocupadas com a resposta do público do que na verdade e exatidão. (…) Não necessariamente se trata de uma completa invenção. Utilizando-se apenas conhecimentos básicos sobre um tópico, é freqüentemente usado para fazer o público acreditar que alguém sabe muito mais sobre o assunto ao dissimular total certeza ou fazer previsões prováveis. Também pode ser apenas conversa fiada ou algo absurdo que, em virtude de seu estilo ou texto, dê a impressão de que ele realmente significa algo.”

Ter o termo bullshit relacionado a beleza no título do blog é algo que promete. Mas que credibilidade tem a pessoa que vai tratar disso? Nisso entra o segundo atrativo.

2º A autora

A autora do blog, Rowena, conhece muito bem a indústria de cosméticos, já foi gerente de uma marca global de maquiagens no passado (ela não cita qual/quais, mas acompanhando os textos e o nível de conhecimento dela, sabe-se que a empresa era grande e o cargo que ela desempenhava também). Passado? Sim, ela não trabalha mais nesse mundo. Segundo ela, seu texto mais memorável foi o email de despedida do do mundo corporativo, em suas próprias palavras, do tipo que você escreveria somente se tivesse ganho a loteria. Ela tem sido bem crítica com relação ao período em que passou na indústria de cosméticos, e escreveu o blog para comentar tudo que ela achar que seja de interesse para as leitoras. E o melhor, sem restrições, como pode-se ver neste trecho do “about”:

“As well, girls, if you have any questions, shoot. I am not on the cosmetics payroll anymore and my contract to secrecy has just expired.

We girls may want to be beautiful – but it doesn’t mean we have to be suckers.

Oh, we are going to have a lot of fun! “

A autora não é uma revoltada com o uso de cosméticos e maquiagem, confessa que não abre mão deles e gasta muito com isso. Porém  questiona os meios utilizados nessa indústria para obter seus lucros. Ah, seus os textos são do tipo super sinceros, irônicos e vêm sempre acompanhados de ilustrações de humor peculiar como estes que ilustram o post. Não sei vocês mais, eu adoro isso.

3° Os temas abordados

Os temas são bem variados. Ela comenta sobre vários aspectos de marketing, tais como: seleção do nome, escolha dos ingredientes, propaganda impressa, contratação de maquiador famoso que não entende p**** nenhuma de formulação para dar o nome da linha e fingir que foi ele que ajudou a desenvolver, uso de maquiagem de outras marcas para se obter o efeito desejado na foto da propaganda do produto novo, etc. Entram também aspectos técnicos sobre a formulação, processo e especificações feitas quando se desenvolve novo produto; a pressão dos CEOs para que as vendas de maquiagem sejam sempre maior, uso do photoshop, questões de ética (ou melhor,  falta de). Muita coisa não é exatamente novidade, ou era coisa que você desconfiava e não tinha certeza. Ela joga esses fatos na sua cara, pra não ter dúvidas.

A seguir, alguns posts que eu recomendo, cada um com um trecho selecionado:

1) Tyranny of Ingredients

O texto mostra todo o marketing relacionado à seleção dos ingredientes. O diálogo dela conversando com a pessoa da parte técnica (“lab people”) para formular um batom é algo que todo mundo precisa ler.

“When I meet make up artists or self confessed beauty addicts, the “serious” ones normally try to establish their high ground by throwing me their knowledge of ingredients. I find it quite amusing …  yet so utterly futile!”

2) Bullshit Bedtime Story : The Brush Brush-Off with L’Ucifer

Porque certa marca de maquiagem, chamada ‘carinhosamente’ pelo pseudônimo L’Ucifer (o nome não é verdadeiro para evitar processo, porque o negócio é grave), tem pincéis de rímel tão bons e como os sonhos de uma pequena fábrica na Alemanha foram destruídos. Um caso de falta de ética extremo.

“Once upon a time, in a little town somewhere in Germany, there was a small company who was little known to most of the world. But, to the people who work in mascaras, in spite of its size, its reputation of having the best mascara brushes in the whole industry was unparalleled – for it had the passion for innovating on brushes that had been passed from one generation to the next. “

3) Pencil Pornication*

Como funciona o mercado de lápis de maquiagem. A Chanel, a Urban Decay, a MAC não possuem uma fábrica que produz lápis de maquiagem. Existem 3 fornecedores principais para lápis de maquiagem em todo o mundo, sendo que a maioria das marcas compra de um deles. Esses fornecedores possuem um portfólio de texturas e cores e cabe à marca escolher qual ela quer comprar, não sendo dado a ela o direito de exclusividade (e elas nem querem, pois sabem que o nome diferente já é suficiente para que o consumidor acrediteque são diferentes). Vulgo, sim, uma marca desconhecida pode ter um lápis preto  barato igualzinho àquele seu Chanel que custou uma fortuna.”

(…) if you are perfectly happy with how things are with the cosmetic world that having the right brand name is not only fun but helps your “self worth” and is therefore worth paying more for – then I suggest you skip this post of mine as it will break your heart.”

4) Pencil Pornication: The Sequel*

Continuação do post anterior, ela fornece mais detalhes sobre procedimentos da marca para ter o lápis desejado, fatores que encarecem o produto, e dicas de como obter o melhor custo benefício em sua compra. Gostei muito das informações técnicas fornecidas, vale a pena ler.

First thing to remember is that BRAND NAMES DON’T MEAN SHIT. Your brands do not manufacture your pencils. They all source from the same suppliers. So if you think that you have to buy a particular brand to get quality- you are mistaken and are only spending unnecessarily more.”

5) The Bullshit On Brushes

Como funciona o processo de seleção de fornecedores de pincéis (alguém tinha ilusão de que a MAC tinha a própria fábrica de pincéis?), como avaliar um pincel como um profissional da indústria faz e realizar a compra com o melhor custo benefício.

“We all source from brush manufacturers, a majority of them are from the Far East. These suppliers offer no exclusivity, except of course that they will not stamp the MAC brand to another brush customer.”

6) Top8 Bullshit Tactic: Statistics On Steroids

A realidade por trás das estatísticas nas propagandas de maquiagens e cosméticos.

“Give me any crappy product and I can weave a convincing steroid shot statistic about it. How? Just a good sized panel and lots of ambiguity”

7) The Lure of the Lipstick: Why We Don’t Take A Stand Against Pro-Nature Controversies

Como a questão “o cliente sempre tem razão” é encarada pelas companhias. É bom que o cliente sempre ache que tenha razão, mesmo que não tenha. Esse é outro que eu acho que vale bastante a pena dar uma lida até o fim.

So when an environmental organization comes along to accuse that one ingredient causes unborn babies to be gay, heck we will not do a study to disprove that.  We will not argue with the customer. We will apologize to the public, withdraw the offending products, change these ingredients (or relabel and call it by another name) and then support a foundation that dedicates research of child feminization and make sure that we get a lot of publicity from it – more than if we had spent that money on classical advertising. Because – customers are always right!”

8) The Council of the Clueless:MakeUp Artists Do Not Create Your MakeUp Line

Maquiadores não desenvolvem linhas de maquiagem, apenas recebem muito bem para fingirem que sabem algo a respeito. Este post dá o crédito às pessoas que realmente se envolvem para desenvolver a tal linha de maquiagem , e também dá uma dimensão dos lucros.

“present me your spring concept with 3 lip products, 2 eye products, 1 mascara and 1 multi face product.  Your budget for each(this figure is true! haha! suckers!)and this has to generate 4 trillion million euro sales.”

Essas são algumas sugestões, como disse, acho que da maioria dos posts se tira algo interessante e vale a pena dar uma geral no blog. A série que mostra as técnicas utilizadas por ela para fazer você comprar mais maquiagem a cada ano, assim como todos os posts em que ela trata das máscaras de cílios também são muito interessantes.

*Nota minha: Em nenhum dos dois posts é citado o nome dos fabricante, mas você pode conferir em sua próxima compra que eles são na grande maioria dos casos Schwan Cosmetics ou Faber-Castell.

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Sobre Vanessa

Engenheira química, paulista, 27 anos, apaixonada por cosméticos e maquiagens. Acredita que conhecimento nunca é demais e que as pessoas deveriam ser mais críticas com as informações que recebem.
Esse post foi publicado em utilidade pública. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Indicação de leitura: Beauty and The Bullshit

  1. Esse blog é excelente! O ultimo post que eu dei pulinhos quando li foi o da maquiagem cruelty free…. sempre achei esse tipo de coisa uma piada, assim como boicotar produtos feitos na China. As pessoas levantam bandeiras mas parece que não param pra pensar no que estão realmente defendendo…

  2. Vanessa disse:

    É Ju, existe muita gente que defende bandeiras sem ter uma visão completa de como as coisas funcionam. E existe a tendência de se acreditar em fontes sem muito embasamento técnico porque elas são famosas e mais simpáticas. Se fosse possível, ninguém faria produto com testes em animais, eles são caros, burocráticos e mancham a imagem da empresa. O Pedro fez um post bem abrangente (o mais completo que eu já li) sobre essa questão dos testes em animais, acho que você pode se interessar: http://easttowestskincare.com/2012/01/09/esclarecimentos-sobre-os-testes-em-animais-realizados-pela-industria-cosmetica/

  3. Lanny disse:

    Amei a indicação, sempre que tiver algo diferente, por favor, indique, pois há pessoas sedentas por info diferentes das comuns por aí! Brigada! beijos!

  4. Vanessa disse:

    Oi Lanny, eu abri uma conta de twitter pro blog para começar a colocar os links pros textos que eu achar interessante, dá para acompanhar direto do blog mesmo. Mas se tiver algo que eu queira detalhar mais, pode deixar que eu faço algum post a respeito.

  5. Rowena disse:

    Thank you Vanessa for this recommendation! I am truly humbled!- Rowena

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