Não confunda Mamona com Castor

É meio bizarro o título, mas é que eu já vi gente fazendo essa confusão algumas vezes, e achei que daria um post interessante. Sabe, às vezes acho tem gente que faz questão de ficar procurando sarna para se coçar. São bem populares essas listas de “empresas cruelty free (ou não)”, “ingredientes de origem animal”, “ingredientes perigosos ou que você deve evitar”, etc. Tem gente que segue à risca tudo que está nelas, sem questionar a qualidade e averiguação das informações.

O caso que eu vou comentar é de um ingrediente que eu já vi sendo hostilizado por aí por causa de falha de tradução, desconhecimento dos termos técnicos corretos e coincidência. Além dessa falha de tradução estar num dos sites mais procurados por quem procura essa listinha de ingredientes animais.

O tal ingrediente é o Castor Oil.  Devido a uma propriedade bem peculiar dele*, ele é amplamente utilizado em produtos cosméticos. A tradução errada que o pessoal tem feito por aí é chamá-lo de óleo de castor, quando essa tradução não faz sentido nenhum.

Castor oil? Not from me!

Em inglês, o nome do ingrediente é esse porque ele é extraído da castor bean, que por sua vez, é fruto da castor oil plant. A tradução correta para o português seria dizer que o tal produto é o óleo de rícino, o qual é extraído da mamona/rícino, a qual é fruto da mamoneira (Ricinus communis L).

Castor bean ou mamona/rícino.

A coincidência que colabora para a confusão é que realmente existe um óleo extraído do animal castor e que é utilizado na indústria. O tal óleo seria a secreção de grândulas próximas à região genital do bichinho, sendo utilizada para a impermeabilização do animal.  Possui coloração castanho amarelada, cheiro forte e penetrante, sabor amargo. No passado, essa substância foi utilizada como remédio por suas propridades purgativas (não faço a mínima idéia quem foi que teve a idéia de extrair óleo dali e engolir pra ver no que dava).

Castoreum, o óleo que vem do castor. E sua origem.

Castor oil

Castor Oil e sua origem.

Devido às semelhanças com o óleo de rícino (coloração, sabor amargo, odor forte), provavelmente é daí que veio o nome da planta em inglês. Atualmente, essa substância é utilizada em perfumes e como aditivo em alimentos, sendo o uso medicinal raro.

Se existe mesmo um “óleo de castor”, como ele é chamado em inglês (já que não pode ser “castor oil”)? Para identificá-lo, o nome correto a ser procurado é castoreum/castor, apesar de que, se adicionado como aditivo de alimento, ele provavelmente estará citado apenas como “aroma natural”. A tradução correta para este ingrediente seria “castóreo”.  Dizer que é óleo de castor não é errado no sentido de ser oleoso e proveniente do castor, mas “óleo de castor” não é o termo técnico adequado para ser colocado na lista de ingredientes.

O site famoso que divulga “óleo de castor” como ingrediente de origem animal é o PEA. Inicialmente eu achei que eles tinha simplesmente feito uma tradução porca do site do PETA (citado como fonte), já que o uso mencionado corresponde ao do castóreo. No entanto, e isso é uma adição feita pela organização brasileira, é dito que existe alternativa à obtenção dele: fontes vegetais ou sintéticas. A partir do momento em que diz que ele pode ser obtido de fontes vegetais, já deu para entender que confundiram alhos com bugalhos e jogaram o óleo de rícino e o castóreo num mesmo balde. E confundiram a cabeça de várias pessoas, que passaram a acreditar que um óleo vegetal é de origem animal.

Deixem o Castor Oil em paz gente…

* O óleo de rícino é o único óleo vegetal produzido comercialmente que possui o grupo funcional hidroxila (OH), polar, na cadeia de carbono, apolar. Isso o deixa com propriedades peculiares, tais como alta viscosidade e solubilidade em álcool mesmo a baixa temperatura. Tal característica única faz com que ele seja amplamente aproveitado na indústria de cosméticos.

Atualizado 28/05/2012: Como bem lembrou a leitora Helena, o bichinho castor é “castor” em várias línguas (o nome científico de todas as espécies de castores é Castor Alguma Coisa), mas em inglês ele é chamado de beaver. Vulgo, não tem desculpa mesmo para esse engano.

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Sobre Vanessa

Engenheira química, paulista, 27 anos, apaixonada por cosméticos e maquiagens. Acredita que conhecimento nunca é demais e que as pessoas deveriam ser mais críticas com as informações que recebem.
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28 respostas para Não confunda Mamona com Castor

  1. Lanny disse:

    Nem sabia que estavam fazendo esta confusão. Quando quis fazer minha fórmula do Oil Cleasing Method, traduzi "castor oil" pelo google tradutor e mesmo e ele me deu "óleo de rícino". Vai entender… 🙂

  2. Vanessa disse:

    Eu também tive meu primeiro contato com o "castor oil" pelo oil cleansing method, joguei no google e esclareceu minha dúvida. Mas o pessoal vai traduzindo assim, literalmente, dá nisso… Pior que eu nem tinha visto esse engano em tanto lugares assim, mas pelo Twitter o pessoal comentou que já viu isso muitas vezes e que até tem gente que sofre para comprar produtos justamente porque o tal do "óleo de castor" tá em todo lugar, hehe.

  3. Helena disse:

    seria tão mais fácil se as pessoas parassem pra pensar que "castor oil" não faz sentido simplesmente porque o nome do bichinho em inglês é beaver…

  4. Vanessa disse:

    Pior que é verdade, me esqueci desse "pequeno" detalhe. "Castor" nem existe em inglês, só em outras línguas e no nome científico deles.

  5. Um dos resíduos do Castor Oil ou Óleo de Mamona é a ricina, uma substância muito tóxica e que pode matar um adulto com mínimas doses (inalada ou por via oral). Ontem, foi interceptada uma carta ao Presidente Obama com esta substãncia. Pode?
    Walter

  6. Vanessa disse:

    Walter, a rícina está presente na mamona, mas por não ser solúvel no óleo, não há risco dessa substância ser encontrada no óleo de rícino. Ou seja, apesar da mamona ser bem venenosa, o óleo extraído dela não apresenta perigo.

  7. E quando vem identificado em portugês na embalagem “óleo de castor”, continua sendo de mamona, ou é mesmo de castor, como por exemplo nos lubrificantes K-MED?

  8. Vanessa disse:

    Nathânia, muitas empresas fazem a tradução errada, inclusive as que vendem. Já vi empresa nacional que produz “óleo de castor” que só pode ser o de rícino, já que desconheço a criação de castores no Brasil.
    Não tem razão para o castóreo (aquele que é extraído do castor) estar em um produto desses, só pode ser o óleo de rícino.

  9. Parabéns e muito obrigada pelo artigo super esclarecedor!
    Sucesso!

  10. Vanessa disse:

    Oi Mariana Villanova, obrigada!
    Beijos

  11. Anna Shudo disse:

    Muito providencial o seu post! Obrigada!

  12. M Quadros disse:

    Mesmo quando não sabia que esse castor oil na verdade era oleo de ricino me recusava a acreditar que ele provinha do pobre bichinho castor. Ainda bem que não é mesmo.

  13. Vanessa disse:

    Pois é M Quadros,
    atualmente é um ingrediente tão comum que não sei como as pessoas acreditaram que haveria castores no mundo suficientes para suprir a demanda. Mesmo que fosse o caso de no passado ser extraído do castor (o que não procede), hoje teria que existir uma fonte alternativa para que o ingrediente pudesse ser tão corriqueiramente utilizado.
    Beijos

  14. Andrea disse:

    “não sei como as pessoas acreditaram que haveria castores no mundo suficientes para suprir a demanda” Haveria sim como atender a demanda se a indústria mercenária de cosméticos achasse algo no castor que pudesse interessar. Se o cervo almiscarado que não brota como xuxu é torturado e assassinado por várias indústrias de perfumes o castor tbm seria, ainda bem que não é.

    • Vanessa disse:

      Não dá para comparar a quantidade de óleo de rícino utilizada com o seu exemplo dado. Se fosse mesmo de interesse e houvesse criação em massa de castores para dar conta da demanda, isso seria com certeza bem difundido pelos protetores de animais. Como ninguém nunca ouviu falar desse tipo de denúncia, continua não fazendo sentido alguém acreditar que há cantores no mundo suficientes para suprir a demanda.

  15. LuAF disse:

    Vanessa, muita obrigada pela explicação! Isso porque já usei dois batons com esse óleo e notei uma reação adversa nos lábios, com espessamento ( como que calificando) e perda de sensibilidade em decorrência. Agora tenho procurado os ingredientes e fiquei confusa porque sempre ao lado do castor oil ou do óleo de rícino vinha o nome da espécie Ricinus communis, e eu já sabia que rícino era derivado da mamona, mas nunca tinha me atentado que a tradução de castor era beaver. Foi esclarecedor!!! Enfim, continuo tendo que caçar os ingredientes na hora de comprar batom.

  16. Arno disse:

    Minha mulher recebeu uma dica que o óleo de castor seria bom para firmar a pele em quem está em processo de emagrecimento e precisa perder muitos quilos. Pesquisando na internet me deparei somente com o óleo de rícino e acabei ficando confuso. Saberia me dizer se a dica que ela recebeu têm fundamento e se o óleo do castor animal, ou castóreo como vc mencionou, é comercializado?

  17. Audrey disse:

    Obrigada! Coloquei no Google “óleo de rícino” p/ traduzir para inglês e apareceu “castor oil”… P/ mim o bichinho Castor era Castor tb em inglês.. aí fiquei passada.. puta meu.. ñ vou comprar óleo de castor não! Aí como sou mto curiosa, por via das dúvidas, fui pesquisar, claro.. Vc ñ pode ter certeza de uma coisa que ñ sabe! Aí q encontro sua página.. Valeu, agora posso comprar meu óleo de rícino SEM CRUELDADE!!!! E q alívio, castores salvos!!! KKKK OBRIGADA!!!! 😉

  18. cinara013 disse:

    Bom se vc mora nos eua e compra o castor oil vai ver q os componentes são os mesmos que o óleo de rícino.. É bem conhecido aqui.. Para uso nos cabelos cílios e sobrancelha.. E em algumas marcas o castor oil vem na embalagem a semente da mamona desenhada ..

  19. Celisa cheves disse:

    Afinal o oleo de ricino e bom p o cabelo?

  20. Karina disse:

    Eu cheguei até seu blog justamente por esta dúvida haha. Acabei de ler um post no FB em inglês falando sobre os benefícios de diversos produtos que todo mundo deveria ter em casa, limão, óleo de coco, vinagre branco, vinagre de maçã, bicarbonato de sódio, Castile Soap (que eu acho que é um sabão natural vendido nos EUA) e o último era Castor Oil, opa tomei um susto não pode ser óleo de castor em uma página que se chama Gorgeously Green. Mas que bom que procurei no google, adorei seu blog! Pretendo ler mais coisas e te seguir, adoro saber sobre os ingredientes, etc. Obrigada.

  21. dilza cadoso disse:

    OK ENTAO O CASTOR OLEO O MESMO OLEO DE MAMONA OU O MESMO OLEO DE RICINO MENINAS ? obigado . um grande abraco.

  22. João Batista Piazza disse:

    Parabéns jovem engenheira pelas suas colocações e ajudar-nos ( pois somos analfabetos funcionais compulsórios e favelados do bolsa familia), a entender a diferença do óleo de mamona(rícino) e de óleo de castor (beaver).

    João Batista

  23. Reginaldo Paz disse:

    Parabéns Vanessa, e muito obrigada pelo artigo super esclarecedor!
    Sucesso!

  24. Ignez Zenti disse:

    ESTOU AQUI EM SEATTLE ,PORCURANDO OLEO DE RICINUS SO’ ENCONTREI CASTOR OIL.
    BUSQUEI A TRADUCAO FOI ESSA QUE ENCONTREI !!!TENHO MINHAS DUVIDAS, MESMO TENDO COMO INGREDIENTE: RICINUS COMMUNIS((CASTOR SEED OIL))) FIQUEI MAIS TRANQUILA DEPOIS DE LER AS RESPOSTAS DE TODOS VOCES OBRIGADA !!! QUE DEUS OS ABENCOE !!!
    SEATTLE. WA. JULHO/11/ 2016. 5;06 PM.

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