Sobre os tipos de xampu – Parte I

Neste post, vou comentar um assunto amplamente divulgado nos blogs de beleza por aí, “os tipos de xampu”. Mais especificamente, aqueles que dizem que você deve escolher o xampu pela aparência dele. Apesar de mostrado como algo simples e alguns mencionando que há “ciência” por trás dela, a questão é um pouco mais complexa do que parece.  Se você está boiando e nunca chegou a ver nada a respeito, te explico.

A TAL TEORIA DOS TIPOS DE XAMPU

Segundo a tal teoria, divulgada amplamente por cabeleleiros, dermatologistas e blogueiras, os xampus podem ser divididos em categorias, as quais podem ser identificadas pela aparência do xampu. Existem algumas variações, mas as mais comuns são essas:

-Transparente: xampu de limpeza profunda. Encaixam-se nessa categoria os voltados para cabelos oleosos  e anti-resíduos. Pode ter cor ou não, mas se for anti-resíduos é sempre transparente.

-Perolizado/Translúcido: não limpa tão profundamente quanto o transparente e possui hidratação intermediária. Em outros lugares, mencionam que são de tratamento. Recomenda-se o uso diário.

-Cremoso/Leitoso: Por serem mais densos, possuem maior poder hidratante e são recomendados para cabelos secos. Podem também ser de tratamento, vide os anti-caspas.

Alguns lugares mencionam que o xampu transparente só deve ser utilizado uma vez por semana ou a cada 15 dias, outros dizem que deve ser utilizado em toda lavagem antes do outro tipo de xampu (perolizado ou cremoso). Unanimemente,  é considerado que o xampu transparente deve ser utilizado antes de hidratações ou qualquer tratamento intensivo por limpar bem o cabelo e deixá-lo pronto para absorver melhor o tratamento. Também é mencionado que deve ser evitado por quem tem cabelo tingido, pois abriria muito as cutículas e poderia levar à perda da cor mais rapidamente.

Aparências que se podem ser encontradas em xampus.
Fonte das fotos: transparente, translúcido, perolado, leitoso.

AS BASES DA TEORIA (= O QUE EU ACHO QUE AS PESSOAS PENSAM)

As pessoas acham que o xampu é transparente simplesmente porque não adicionaram à mistura água-surfactante-aditivos os ingredientes hidratantes e de tratamento (o tal “creminho”, como já li por aí), logo, deve limpar bem.

Elas imaginam que os xampus cremosos/leitosos são assim porque adicionaram muitos agentes hidratantes e nutritivos, estes não se misturam com água e por isso é necessária a formação de uma emulsão, portanto, quanto mais ingredientes assim, mais cremosa a emulsão. Outras pessoas simplesmente dizem que “adicionaram o creminho”. Como esses ingredientes são pesados, um xampu cremoso não limparia bem.

E a questão do translúcido? Eu imagino que quem diz que xampu translúcido é de uso diário tem na mente a seguinte correlação: se o transparente só limpa e o cremoso é assim porque lotaram ele de “creminho hidratante”, o translúcido parece uma mistura intermediária dos dois e deve ser mais adequado para o dia-a-dia porque não pesa como o cremoso e nem é “só limpa” como o transparente, seria o meio termo.

Quanto ao translúcido ser de tratamento, não sei bem qual o raciocínio. Talvez achem que, por não serem tão brancos/opacos quanto os ditos cremosos, não contém os pesados agentes hidratantes e, como não é transparente, não faz só a limpeza. Assim sendo, ele deve ser “de tratamento”(?).

A questão do leitoso anti-caspa é bem fácil deduzir de onde veio, basta observar os xampus anti-caspas mais populares à venda por aí (Head & Shoulders e Clear, por exemplo)

Com relação ao perolizado, eu juro que não consigo imaginar o raciocínio empregado e nem porque colocam perolizado na mesma categoria de translúcido, quando há tantos produtos que são cremosos e perolizados simultaneamente (Seda Reconstrução Estrutural, por exemplo).

Enquanto para a maioria das pessoas essa teoria faz sentido (eu pelo menos nunca vi um blog contestando), para mim, possui algumas falhas e é por isso que resolvi ser o chato do ponto discrepante a expô-las.

Aliás, mesmo sem entrar nos aspectos técnicos eu já diria que já é falho dizer que xampu transparente deve ser usado para cabelos oleosos e o de uso diário deve ser o translúcido. Se quem tem cabelo oleoso tem o costume de lavar diariamente, quer dizer que essas pessoas deveriam usar o translúcido e ignorar o voltado para o tipo de cabelos delas, que seria o transparente pela teoria?

TECNICAMENTE FALANDO…

A base de todo xampu é uma mistura de água e surfactante, sendo que, como os surfactantes são solúveis em água, a base é transparente. Mas não dá para vender um xampu só com esses dois ingredientes, seria muito agressivo ao cabelo e não seria agradável ao consumidor. São necessários aditivos como controladores de pH, conservantes, espessantes, fragrância (só a mistura base não teria odor agradável), intensificadores de espuma, agentes condicionantes, etc.

A adição de corante em geral não tem função nenhuma, possui apenas aspecto estético (exceto no caso em que o corante em excesso serve para neutralizar algum tom) e vai embora com o enxágue. É meio óbvio para mim, mas como eu vi gente que diferencia xampu transparente incolor de colorido dizendo que o anti-resíduos sempre é transparente e o “transparente que não é anti-resíduos” pode ser colorido, achei interessante mencionar isso. Se eu quiser colorir o anti-resíduos não há problema nenhum nisso, é só não abusar.

O que dá o aspecto leitoso ou cremoso, se não forem partículas sólidas dispersas, é a presença de ingredientes imiscíveis em água, pois estes requerem a formação de uma emulsão para que a mistura fique uniforme do ponto de vista macroscópico. Na emulsão, pequenas partículas da fase óleo ficam dispersas na fase aquosa. Durante a passagem da luz pela emulsão, ocorre o fenômeno de refração a cada vez que a luz atravessa a partícula, a luz acaba se dispersando nesse caminho e é por isso que costuma perder a transparência.

Líquidos imiscíveis (esquerda) e após a formação da emulsão (esquerda).

Você pode observar a formação de emulsão e perda da transparência ao agitar um daqueles óleos trifásicos ou demaquilantes bifásicos. No caso dos bi/trifásicos, a emulsão formada não é estável e logo as fases voltam a se formar.

Como os agentes condicionantes não são miscíveis em água, logo, a teoria estava certa? Não necessariamente.

Se o xampu de limpeza fosse só água, surfactante e conservante isso faria sentido, teria que ser transparente. Porém, praticamente todo xampu também inclui agentes condicionantes para não detonar o cabelo. Existe diferença na concentração destes ingredientes entre um xampu de limpeza e um hidratante, mas não dá para negar que estão presentes nos dois tipos. Até em ditos xampus anti-resíduos tem alguns ingredientes condicionantes se você analisar a fórmula com atenção. Lembrando que  limpar bem os cabelos é tirar a oleosidade e sujeira acumulada, não necessariamente implica em danos ao cabelo como resssecamento e remoção desnecessária de parte estrutural do cabelo (o que seria a ação de alguns surfactantes se estivessem atuando sozinhos). O bom xampu de limpeza possui ação que limpa sem ressecar.

Existem diversos ingredientes condicionantes solúveis/miscíveis em água. Por exemplo, Polyquaternium-44 é considerado completamente miscível em água e com propriedades condicionantes excelentes, como se pode ver nesse estudo. Além disso, é possível fazer com que uma emulsão seja transparente (ou algo próximo disso). Uma maneira é trabalhar os componentes de modo que os índices de refração das fases aquosa e oleosa sejam similares (não muito viável). A outra é reduzindo o tamanho das partículas dispersas de modo que elas sejam tão pequenas que não seja possível a refração. Neste caso, temos o que se chama de microemulsão.

Diversos tipos de misturas emulsionadas. A (D) é a homogênea e mais comum, a (E) é uma microemulsão (Fonte)

Outro exemplo comparativo. Microemulsão (esquerda) versus macroemulsão (direita). (Fonte)

Dessa forma, um xampu transparente pode variar de uma simples solução aquosa contendo um único agente de limpeza e quantidades mínimas de preservativos e componentes estéticos até uma complexa emulsão transparente empregando diversos agentes de limpeza e grande variedade de aditivos modificadores. Eu posso obter essa transparência tanto trabalhando com microemulsão quanto selecionando apenas ingredientes solúveis ou miscíveis em água.

Outro ponto a ser considerado é que existem agentes opacificantes e perolantes que são adicionados à formula puramente por aspectos estéticos, sendo um artifício útil para quando a fórmula não tem como ser transparente. Como aspectos estéticos, podemos ter:

  • o perolado pode dar a impressão de um produto mais chique;
  • um produto sem transparência dará a impressão de que possui fórmula mais rica;
  • essa fórmula turva não está com uma cara muito bonita, precisa ser melhorada;
  • simplesmente eles querem que o produto final tenha um tom pastel e para isso é preciso um produto com fundo opaco para atingir esse resultado.

Vulgo, pode-se trabalhar a aparência do xampu para que este tenha a cara que o formulador achar mais adequada. Se ele achar que um xampu translúcido seja não vai dar credibilidade ao efeito hidratante dele, basta adicionar um opacificante.

Para o aspecto opaco/leitoso, são vários os ingredientes que se pode adicionar, dependendo da concentração com que são utilizados podem ter outras funções adicionais além do aspecto estético. Cetearyl alcohol por exemplo, pode atuar também como agente condicionante e emulsificante.

O que dá o efeito perolado é um ingrediente relativamente insolúvel do tipo cera e que, submetido a certas condições de processamento (resfriamento lento) forma cristais que resultam no aspecto perolado. São várias as opções, mas independente da função a que se propõe o xampu, é quase sempre glycol distearate. Eu praticamente consigo identificar se o xampu é ou não perolado só de ler os ingredientes e achar esse ingrediente.

Pode-se imaginar que o fato de se adicionar uma cera torne o xampu totalmente inadequado para cabelos oleosos e implique que ele não irá limpar direito, porém, o desempenho do xampu é o resultado da atuação conjunta de diversos ingredientes em um dada composição. Não dá para deduzir o desempenho global de um produto simplesmente “pescando” o nome de um ingrediente na lista. Eu posso aproveitar que a fórmula não precisa ser transparente e usar uma quantidade maior de glycol distearate, aproveitando a atuação dele como emoliente. Porém, posso também ter uma fórmula com menor concentração do perolante e maior detergência de modo que não deixe cabelos oleosos pesados e nem ressecados.

Na prática, o perolante é utilizado mais por questões estéticas mesmo do que funcionais, já que existem ingredientes melhores do que ele para condicionar.

De fato, trabalhar com um xampu cremoso ou perolado ajuda bastante o formulador no sentido em que ele não precisa restringir a escolha de seus ingredientes àqueles que irão resultar em uma solução transparente. Dessa forma, ele tem uma maior liberdade para selecionar os aditivos de seu produto. Convém ressaltar que isso não implica que, por ser cremoso ou perolado, ele tenha que ter uma formulação mais “rica” ou com propriedades condicionantes melhores .

Vale também comentar que o fato do xampu ser grosso não tem nada a ver com ser rico em ingredientes condicionantes. O formulador sabe que xampu ralo e muito líquido não é legal porque escorre demais e dificulta a dosagem, dessa forma,  ele sempre trabalha para engrossá-la (função do odiado sal, mas ele não é o único ingrediente que ajuda a espessar). Curiosamente, o Seda Citric Fresh é transparente e tão consistente quantos demais xampus da Seda considerados cremosos/perolados, mas, como não tem o fundo branco, ninguém fala nas resenhas que ele deve tratar/hidratar bem por ser grossinnho (já li isso nas resenhas das outras linhas Seda).

Tem um post interessante do Beauty Brains (blog de formuladores de cosméticos que escrevem anonimamente) no qual é dito que, para o formulador de cosméticos, existem apenas 4 categorias de xampus a serem consideradas na prática e não é a aparência que define elas e sim  a função. São elas:

xampu de limpeza: com maior nível de detergentes, proporciona uma melhor limpeza do cabelo e couro cabeludo sem pesar nos fios (anti-resíduos, cabelos oleosos/mistos, cabelos finos).

xampu condicionante: além de limpar, deposita no fio uma película de algum agente hidratante. Podem pesar em cabelos finos, mas ajudam a manter o cabelo mais liso, protegem cabelos que possuem tintura e tratam cabelos ressecados ou que sofrem com uso de secadores e modeladores a calor.

xampu de bebê: contém surfactantes mais suaves e fórmulas que não ardem se cair nos olhos. Apesar de adequados ao bebê, não limpam muito bem o cabelo. Inclua aqui aquele Johnson’s Baby que muita gente usa como de limpeza só porque é transparente, mas na verdade não limpa direito (eu pelo menos nunca gostei de usá-lo na lavagem de pincéis por achá-lo fraco demais).

xampu anticaspa: Pode ser de limpeza, pode ser condicionante, mas precisa de ingredientes com ação anti-caspa (controle da coceira e da descamação do couro cabeludo) para se encaixarem nessa categoria.

Por que a teoria dos tipos de xampu parece funcionar tão bem e tanta gente acredita nela? Como o post ficou meio grande, deixo a análise dessa questão e a menção de vários exemplos que fogem do predito pela “teoria” para o próximo post (quase finalizado), a ser publicado daqui a alguns dias. Até!

Atualizado (27/02/2013): Já saiu a continuação: Sobre os tipos de Xampu – Parte II.

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Sobre Vanessa

Engenheira química, paulista, 27 anos, apaixonada por cosméticos e maquiagens. Acredita que conhecimento nunca é demais e que as pessoas deveriam ser mais críticas com as informações que recebem.
Esse post foi publicado em cabelos, limpeza e marcado . Guardar link permanente.

15 respostas para Sobre os tipos de xampu – Parte I

  1. Amei o post. Obrigada por me esclarecer de maneira tão clara. Aguardando a parte IIBeijos

  2. Vanessa disse:

    Oi Sandra, que bom que gostou! :)Agradeço o feedback! Espero que goste da parte 2 que estou preparando.Beijos!

  3. Nada a ver com o post, Vanessa, mas nunca pensaste em trabalhar na indústria cosmética? Tem bastante espaço para engenheiro químico…

  4. Sandra Diniz disse:

    Gostei muito! E, sobre o xampu de bebê da Granado, o que vc acha? Eu tenho a impressão que ele limpa melhor do que o Johnsons…

  5. Francys disse:

    Ansiosa para a segunda parte. Sempre tinha comigo que essa tal "teoria dos xampus" era só balela. Mas eu realmente quero saber como se pode escolher entre eles, identificá-los, principalmente os de limpeza profunda que não sejam anti-resíduos, pois se não a progressiva vai embora todinha (pelo menos é o que dizem, a não ser que seja outra lenda, heheheheh)!

  6. Francys disse:

    Ansiosa pela segunda parte! Espero que seja abordado um método para identificá-los (pois muitas vezes os rótulos contém informações deficitárias), já que a aparência do líquido não é um critério confiável, principalmente os de limpeza profunda que não sejam anti-resíduos, pois dizem que cabelos com progressiva não podem se valer desse tipo de xampu (não sei se é outro mito, hehehe). Abraços.

  7. Dani disse:

    Ainda bem que existem pessoas como você, porque nunca vi um único blog sequer refutar esse tipo de "teoria dos xampus". Sempre achei muito sem sentido essa história de escolher os xampus pela cor (ou transparência).

  8. Vanessa disse:

    Olha, até que não seria má idéia…Quando eu estava procurando emprego até fiz algumas tentativas, mas não cheguei a focar nessa área, já que acho outras áreas de atuação também muito interessantes.Mas vou confessar que na época eu não era tão interessada em cosméticos, agora o interesse é bem maior.

  9. Vanessa disse:

    Oi Sandra! Eu não conheço o da Granado para dizer se ele limpa melhor ou não, mas, no geral, xampus de bebê costumam ser mais suaves que os normais devido às necessidades diferentes dos bebês (menor produção sebácea e menor uso de produtos finalizadores) e pela menor probabilidade de causar alguma irritação. Outra diferença é que os xampus de bebê trabalham com pH diferente dos xampus normais. Os de bebê costumam ter pH próximo de 7 para não arder os olhos, enquanto os xampus de adulto costumam ter pH ácido, por volta de 5,5.

  10. Vanessa disse:

    Oi Francys! Infelizmente vou te deixar na mão, porque eu também não sei como identificar os xampus. Uma vez que não dá para identificar pela aparência, só restaria analisar a fórmula, e eu não tenho conhecimento para tirar tais informações só de olhar a fórmula.Se a progressiva atuar encapando o fio é provável que os anti-resíduos reduzam a duração sim.Geralmente os anti-resíduos têm pH mais alto, maior concentração de surfactante e menos ingredientes condicionantes em relação aos xampus limpeza (de uso diário), acho que só esta última característica dá para identificar olhando a embalagem. Eu vou pela indicação do fabricante mesmo (eu sei que tenho que fugir de tudo que diga que alisa, retira volume, hidrata profundamente, seja para cabelos ressecados e danificados). Felizmente, hoje em dia dá para contar com resenhas nos blogs e fóruns da internet para obter mais informações sobre o desempenho dos produtos nos diversos tipos de cabelos.

  11. Vanessa disse:

    Oi Dani! O que eu percebi é que essa tal "teoria" foi divulgada por gente muito famosa (até sei quem foi a primeira pessoa a divulgar isso nos blogs) e com tanta confiança que as pessoas começaram a reproduzir a informação sem nem questionar se tinha fundamento ou não, simplesmente acreditaram. No final, de tanto ser reproduzida acabou sendo considerada como verdade, mesmo não sendo.

  12. Oi estou enviando comentário, não apareceu, vc recebeu?

  13. Vanessa disse:

    Oi Cariacica, o único comentário que chegou para mim foi esse.

  14. Lia disse:

    Post maravilhoso!
    Tu escreves muito bem e a maneira que vc explicou fez parecer mais fácil ainda!

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